Emotion
A minha mãe passou cá durante o meu turno da noite e arrumou os armários da cozinha. Encontrei tudo limpo, a pequena já tinha comido, portanto parecia muito feio ficar irritada por não encontrar as chávenas no sítio delas. Mas fiquei. Quando ela explicou que assim era mais prático, respondi com a voz educada que uso com um passageiro que insiste na mesma pergunta, e percebi logo que ela conhecia aquela voz. Não discutimos, fui buscar-lhe uma cadeira. Queria agradecer sem dar a entender que pode decidir tudo aqui dentro, só que as duas coisas saíram misturadas e o café foi um pouco silencioso.
Body
Fiz as tranças da minha filha sentada atrás dela, com os pés apoiados numa cadeira baixa, e só ao fim de algum tempo reparei que estava a apertar os dentes cada vez que ela virava a cabeça para a televisão. Os dedos ainda faziam o trabalho direito, mas eu tinha os braços pesados e precisava de pousar o pente no colo entre duas tranças. Ela quis saber se me estava a magoar. Não estava, era mais aquela dificuldade de ficar na mesma posição depois de tantas horas de pé. Mudámos as duas de lugar, ficou uma risca um pouco torta e as minhas pernas agradeceram quando pude esticá-las por baixo da mesa.
Mind
Eu e o meu marido tínhamos marcado a mesma tarde como livre, só que para ele livre queria dizer tratar do carro e para mim queria dizer que podia ficar com a nossa filha enquanto eu fosse ao curso. Estava tudo escrito no calendário e mesmo assim não serviu. Agora olho para aquelas cores e penso que falta a parte mais importante, quem está com a pequena e a que horas tem mesmo de sair. Comecei a acrescentar isso, mas também não quero transformar a parede da cozinha num quadro de operações do aeroporto. Nesta semana escrevi os nomes por extenso. Ficou feio, pelo menos já sei de quem é cada compromisso.