Mind
Tenho uma tábua guardada há meses para fazer um banco da entrada. O meu marido quer costas altas, eu quero um banco que entre por baixo da janela, onde não atrapalhe a passagem. Ele desenhou num papel uma coisa que ocupa metade da casa e ainda pôs braços. Assim já é cadeira, disse eu. A madeira chega para o meu desenho, para o dele é preciso comprar mais, e a conversa ficou por aí. Hoje voltei a medir o espaço. Com umas costas baixas podia dar, mas não vou mostrar enquanto não souber se consigo tirar todas as peças desta tábua. Não é encomenda, não há pressa.
Body
Subi para casa com o pão debaixo do braço, devagar porque a encosta parece maior quando a oficina fecha. Não era falta de ar, eram as pernas pesadas, principalmente junto aos tornozelos. O meu marido vinha atrás a contar uma coisa do tempo do ferry e eu respondia sem virar a cabeça. Em casa tirei os sapatos à porta, a marca da tira ficou desenhada na pele. Pus os pés num banco e a cadela veio deitar o focinho em cima de um. Quente como estava, ainda quis o calor dela. O pão foi ficando na mesa, pela primeira vez ele teve de se levantar para o cortar.
Emotion
A filha de Boston mandou uma fotografia do neto com uma prateleira que montou. Estava um pouco torta, vê-se pela linha da parede, mas não disse nada. Fiquei contente por ele se lembrar de me mostrar, e aumentei a fotografia para ver as mãos dele, já tão compridas. Depois veio aquela sodade, sem hora para acabar, enquanto ouvia o barulho do telefone à espera de outra mensagem. Queria perguntar quem lhe segurou a tábua. Não perguntei, para não parecer que estou a fiscalizar de longe. Escrevi que estava bonito. Ele respondeu logo, com uns desenhos que a filha me explicou.