Emotion
Meu marido comentou com um cliente da oficina que eu conseguia trabalhar à noite porque ficava sentada. Escutei chegando e fiquei com tanta raiva que nem soube responder na hora. Ele diz que estava falando do esforço físico, não diminuindo meu serviço. Pode ser, mas eu conheço bem o jeito leve com que ele disse. Depois veio perguntar se eu queria café e quase aceitei como se nada tivesse acontecido. Não queria começar uma briga com nossa filha perto. Também não queria engolir mais uma vez. Falei que tinha me magoado. Foi uma conversa curta e meio ruim, sem solução bonita. Pelo menos agora ele sabe por que eu fiquei calada.
Mind
Estou tentando entender por que lembro tão bem de uma referência de estrada e esqueço o recado da escola que acabei de ler. Talvez porque no trabalho eu repita a informação, confirme, escreva, e em casa ache que basta passar o olho enquanto esquento comida. Hoje li de novo o bilhete da minha filha e vi que a autorização era para devolver antes do passeio, não no dia. Nada complicado, eu que completei a frase na cabeça. Deixei o papel na mesa e avisei meu marido para assinar se eu já estivesse dormindo. Não vou montar protocolo para a mochila. Só queria parar de descobrir esses detalhes quando alguém já está esperando na porta.
Body
Minha filha pediu para eu deitar no quintal com ela, em cima de uma toalha, porque dava para ver as nuvens entre os fios. Fiquei pensando na roupa que ia sujar e depois fui. O chão estava morno nas costas, uma pontinha de pedra incomodava perto do quadril e o sol fazia meus olhos fecharem mesmo sem olhar direto para cima. Fazia tempo que eu não sentia o peso da cabeça apoiado sem estar tentando dormir. Ela falava das formas e eu respondia meio atrasada. Quando levantei, fiquei com o desenho da toalha marcado no braço e uma vontade enorme de beber água. Passei a tarde sem aquela pressão do fone atrás da orelha.