Mind
Fui desenhar uma casa com minha filha e ela colocou a porta lá em cima, sem escada. Eu já ia corrigindo tudo, onde entra, como sobe, até ela dizer que era a casa de um passarinho. Pronto, mestre de obra resolvendo um problema que nem existia. Continuei olhando o desenho depois que ela largou, pensando que eu mal consigo rabiscar uma parede sem calcular material. Pra ela bastava querer a porta ali. Não estou dizendo que vou construir nossa casa desse jeito, pelo amor de Deus. Só achei engraçado como minha cabeça começou a trabalhar sem perguntar o que a gente estava fazendo. Ainda desenhei uma escada do lado. Ela disse que o passarinho não precisava.
Body
Minha menina quis pentear meu cabelo depois do banho. Sentei no chão e ela ficou atrás com uma escova grande demais pra mão dela, puxando mais do que precisava. Falei devagar, cabeleireira, e ela alisou minha cabeça como se fosse consertar. O cabelo ainda estava molhado e a camiseta limpa grudava um pouco nas costas, mas eu estava tão bem ali que nem fui trocar. Micaele ria olhando a nossa sala virar salão. A menina passou a mão no meu rosto pra ver se tinha ficado bonito. Eu tinha fome, a comida estava quase pronta, dava pra sentir o cheiro. Fiquei esperando daquele jeito, sem segurar nada pesado, só a escova quando ela cansou.
Emotion
Meu pai passou lá em casa e ficou olhando a parte que terminei, passando a mão na parede sem dizer muita coisa. Quando falou que o acabamento estava bom, fiquei feliz do mesmo jeito que fiquei menino quando ele me deixou usar uma ferramenta de verdade. Quis mostrar o resto, explicar onde vai ser o quarto da menina, já ia puxar ele pra subir. Aí vi que estava cansado e fiquei com um aperto, vontade de continuar contando e de deixar ele quietinho ao mesmo tempo. Tomamos café na calçada. Ele perguntou da obra outra vez por conta própria, e eu falei mais devagar. Gosto demais quando ele vem, mesmo quando quase não sai conversa.