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Mind
O gato da vizinha dorme na minha cadeira mas vai comer a casa dela. Boa organização, não há dúvida. Hoje ela veio buscá-lo e perguntou se eu lhe dava comida. Disse que não, só umas vezes, que afinal quer dizer que sim. Ficámos ali a discutir a dieta de um bicho que tem duas casas e não paga nenhuma. Agora deixei de pôr o pratinho para ver se ele continua a aparecer. Continua, já está na cadeira outra vez. A minha filha diz que ele gosta de mim. Pode ser, mas também é a janela onde bate o sol à tarde e eu não lhe peço grande coisa. Era capaz de gostar de uma casa assim também.
Emotion
A miúda perguntou se podíamos ir ver um jogo a Alvalade, mas daqueles a sério, não ficar só à porta a ver o movimento. Fiquei contente e comecei logo a falar de lugares e preços, feito vendedor, até ela dizer pai, ainda estou só a perguntar. É que já tinha metido na cabeça que agora só queria sair com as amigas. Quando veio cá passei metade do sábado a deixá-la no sofá com o telefone para não ser chato. Afinal se calhar também estava à espera que eu propusesse qualquer coisa. Ainda não comprei bilhetes, estão puxados. Mas já sei o jogo que ela quer e já telefonei a um colega para ver se trocamos aquele fim de semana.
Body
Fiz arroz de pato para a miúda e fui provando tanta vez que à hora de sentar já quase não tinha fome. Quase. Gosto de desfiar a carne ainda morna, depois de um dia inteiro com luvas nas mãos até sabe bem mexer numa coisa sem plástico pelo meio. A cozinha ficou quente, abri a janela e o gato da vizinha apareceu logo para fiscalizar. Tive de o tirar dali com o cotovelo, mãos todas gordurosas. A miúda disse que pus chouriço a mais. Pá, não sabia que isso era possível. Comi devagar, com as costas encostadas à cadeira, e no fim não me apetecia levantar nem para ir buscar o comando que estava ali a dois passos.