Body
Saí para jantar sem os sapatos da loja e passei os primeiros minutos a achar estranho não ter nada a apertar por cima do pé. Parece uma descoberta importante para uma pessoa que vende coisas aos outros há anos. A caminho do restaurante fui andando mais devagar, não por cansaço, só porque não precisava de chegar a uma porta antes que alguém fechasse. Quando me sentei encostei as costas todas à cadeira, coisa que quase nunca faço ao balcão. O meu amigo perguntou se estava bem. Estava, pá, estava era sentada como deve ser. No fim já me custou levantar por outro motivo: tinha comido demais e a conversa ainda estava boa.
Mind
Andei a procurar a bicicleta de um cliente na cabeça e só a encontrava pela conversa que tivemos quando a trouxe, não pelo número da etiqueta. Lembrava-me do neto dele, da campainha partida e do sítio onde a tinha encostado. A funcionária foi ao registo e encontrou em segundos. Eu digo sempre que tenho tudo de cabeça, mas aquilo não ajuda ninguém quando saio para beber café. Comecei a escrever descrições mais claras nas etiquetas. Não a história da família toda, só o que distingue mesmo cada peça. A primeira ficou comprida demais. A segunda já se lia sem lupa. Avaliar bem e encontrar depressa não são exactamente a mesma competência, pelos vistos.
Emotion
A minha filha mostrou-me uma pulseira que fez para uma amiga e eu comecei logo a olhar para o fecho, hábito estúpido de balcão. Ela disse que não era para avaliar, era para ver se eu gostava. Fiquei meio sem jeito. Gostava, as cores eram giras e ela tinha escolhido uma por causa de uma história das duas que eu nem conhecia. Pedi-lhe que contasse e ficámos um bocado na cozinha, sem eu perguntar quanto tinha custado. Soube-me bem ela querer mostrar-me aquilo antes de oferecer. Depois perguntou se eu tinha uma caixinha vazia na loja. Tenho centenas. Desta vez consegui ser útil sem dar preço a nada, um acontecimento doméstico.