Player caobravo
Emotion
Minha mãe guardou metade do pastel para eu levar ao neto. Expliquei que podia comprar outro, aquele era dela. Disse que ele gostava da parte mais crocante e embrulhou assim mesmo. Fiquei meio chateado de ela comer tão pouco, depois vi que estava satisfeita com o embrulho e deixei. O piá abriu em casa e perguntou se a bisa tinha feito. Contei que não, mas tinha escolhido a metade. Comeu na pia, sem prato. Telefonei para contar e ela falou bastante. Eu fiquei ouvindo, segurando o aparelho do lado esquerdo. No fim perguntou se quarta que vem eu ia. Vou. Não mudou o dia, só a pergunta veio mais baixa.
Body
Quinhentos e seis medidores. Na volta sentei no muro e tirei o tênis antes de entrar. A meia estava úmida, o pé quente. Fiquei ali até passar a marca do cadarço. O piá veio perguntar se eu tinha machucado alguma coisa. Não tinha. Quis sentar também e ficou batendo o calcanhar no muro. Eu podia ter ido para a cadeira da cozinha, mas ali pegava vento e ninguém precisava passar atrás de mim. Depois levantei devagar por causa do joelho esquerdo. Os primeiros passos foram duros. Dentro de casa já estava andando normal. Minha filha reclamou do tênis largado na entrada. Fui buscar. O dia acabou com mais essa caminhada.
Mind
O neto encontrou dois cachorros com o mesmo nome no caderno e achou que eu tinha anotado duas vezes. Mostrei as ruas diferentes. Para ele precisava ter sobrenome, senão ninguém ia saber qual era qual. Eu sei pelo portão. O Thor da esquina tem a orelha dobrada, o outro fica quieto até a gente virar de costas. O piá sugeriu desenhos. Não desenho cachorro direito. Fiz um portão ao lado de um nome e ele fez o cachorro ao lado do outro. Ficou parecendo uma vaca, não falei. Agora quer desenhar todos. São cadernos de muitos anos. Vou separar os mais antigos antes que ele comece pelos que ainda preciso consultar.