Body
minha filha quis atravessar o quintal pisando nos meus pés, aquela brincadeira que meu pai fazia comigo, e eu achei que ia ser tranquilo porque passo o dia me equilibrando na lancha. mano, andar com uma criança agarrada nas tuas pernas é outro serviço kkkkk fui todo duro pra não derrubar ela e senti a barriga trabalhando mais do que esperava. ela ria quando eu levantava o pé e eu já tava suando antes de chegar na rede. depois ficou pedindo de novo enquanto minhas panturrilhas davam aquela puxada. no barco eu sei onde botar meu peso sem pensar, ali eu parecia que tava aprendendo a andar junto com ela.
Emotion
meu pai ficou na varanda me ouvindo contar como tava o rio e perguntou de um trecho que ele conhece desde antes de eu nascer. eu fui explicando, ele corrigiu uma coisa, eu corrigi outra e a conversa ficou animada. gostei demais, fazia tempo que ele não perguntava tanto do trabalho, geralmente sou eu falando e ele só balançando a cabeça na rede. quando disse que eu tinha feito certo em esperar a chuva passar, fiquei todo besta. tenho passageiro que elogia todo dia e eu brinco, agradeço, esqueço. dele eu fiquei querendo ouvir outra vez, mas aí minha mãe chamou pra comer e acabou o assunto, justo na melhor parte.
Mind
uma turista perguntou se eu nunca enjoo de ver o encontro das águas, e na hora falei que não porque era a resposta mais fácil. depois fiquei pensando que tem dia que eu nem olho direito, fico vendo quem levantou do banco, quem quer foto, se já tá na hora de voltar. não é que o lugar perdeu a graça, é que eu tô trabalhando ali, né. quando levo minha menina ela aponta umas coisas pequenas, um galho rodando, um passarinho, e aí eu olho também. se a mulher perguntar de novo vou dizer isso, acho. ou vou falar que não de novo porque começar essa conversa com a lancha cheia também dá um trabalho danado.