Emotion
a minha amiga chegou do turno com dois pastéis e disse que um era para mim, sem ocasião especial, sem perguntar por entrevistas, só porque lhe tinha apetecido. fiquei contente de uma maneira desproporcionada para um bolo e depois quase estraguei aquilo a pensar se ela tinha pago o jantar ontem e quanto lhe devo afinal. estou farta de fazer contas até ao carinho dos outros. comi o pastel ao balcão enquanto ela contava uma discussão absurda na clínica e ri-me com a boca cheia. durante uns minutos fui a amiga a quem ela conta coisas, não a pessoa desempregada que vive na outra divisão. soube-me muito bem, e irrita-me precisar de dizer isto assim.
Body
fui correr sem decidir até onde, o que normalmente acaba comigo na Foz a contar moedas para o autocarro, e hoje não houve grande inovação. nos primeiros minutos ia a sentir a mandíbula apertada e a língua encostada aos dentes, como se também precisassem de fazer esforço. depois só reparei no ar frio quando abria a boca e no calor debaixo da camisola. parei antes do sítio habitual porque uma meia estava a fazer uma dobra no calcanhar. passei tanto tempo a tentar ignorá-la que agora tenho uma bolha. excelente capacidade de adaptação, aquela que destaco no currículo. o banho soube-me bem, a meia foi para o lixo.
Mind
encontrei o texto que escrevi sobre a minha avó aos dezassete anos e há uma frase que me pareceu boa, o que imediatamente me levou a desconfiar das restantes. não é propriamente um método de leitura. estava à espera de vergonha alheia e encontrei a cozinha dela descrita com pormenores de que já nem me lembrava, incluindo uma cadeira que entretanto desapareceu. agora não sei se recordo a cadeira ou se estou a acreditar na miúda que a escreveu. apeteceu-me acrescentar o que sei hoje sobre a minha avó, mas isso ia dar outro texto, provavelmente com explicações a mais. deixei o ficheiro aberto ao lado das candidaturas. é uma companhia estranha.